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O PÓS-NEOCONCRETISMO POLÍTICO

Na década de 1920 surgiu em nosso país um novo movimento literário: o Concretismo. Porém, o seu lançamento oficial foi em 1956, na Exposição Nacional de Arte Concreta, em São Paulo, no Museu de Arte Moderna em São Paulo-MASP. Neste momento teve como destaques os irmãos Campos Humberto e Aroldo, ambos poetas, juntamente com Décio Pignatari, também poeta.

Tal movimento a princípio se caracterizava essencialmente pela nova formatação estrutural de poemas sem versos, defendidos por esse trio. Depois, nos anos sessenta evoluiu para um estágio que bem podemos classificá-lo como sofisticado. Nessa nova fase os poemas já continham elementos de fundo, isto é, imagens em movimento e trilhas sonoras – característica verbi-voco-visual.

Estas últimas mais tarde foram rotuladas de música incidental. Era um plus que se desenvolvia em segundo plano, concomitantemente à recitação dos poemas. Esses recursos audiovisuais ajudavam captar com clareza a proposta desse movimento literário: refletir a sociedade moderna, possibilitando o experimentalismo formal à crítica da realidade mediante a palavra, o som e a imagem. Em linhas gerais assim estava fundamentada e consagrada a ruptura do estilo padrão de poemas “vigentes” no Brasil daqueles idos anos.

Como seria de esperar a audaciosa minoria idealizadora desta vertente literária sofreram ácidas críticas nacionais, numa clara tentativa de inferiorizar a iniciativa. Os conservadores da época até diziam de modo irônico que aquele incipiente movimento literário era o rock in roll da poesia brasileira. Mas, ele continuou intrépido sem perder a sua essência; sobreviveu aos bombardeios; até se reinvento mediante neoconcretismo do grupo Ferreira Gullar. Por fim, em menos de duas décadas encontrou o seu espaço na mídia e círculos literários de países europeus democráticos. Por aqui o maior expoente musical dessa “escola” foi Caetano Veloso (“Boa Palavra”) já na vanguardista Tropicália. Hoje o concretismo e as suas vertentes são uma realidade aceita como uma nova forma de expressão literária, quiçá a única que interage com novas tecnologias audiovisuais.
Feitas essas explanações enfoquemos a Política. Sim! A Política. Explico.

Relembrando, a proposta concretista manifestava-se a partir de uma nova concepção de poesia. Assim, fazendo-se um paralelo desse movimento com a política brasileira dos últimos três anos indubitavelmente é impossível não reconhecer que a segunda sofreu uma significativa repaginação por conta de improváveis fatores positivos.

Ocorreu que inicialmente o concretismo tinha apoio apenas três jovens idealistas. Bolsonaro, por causa do seu discurso de combate à corrupção, à violência e exaltação da família, igualmente recebeu apoio de somente meia dúzia de políticos nacionais idealistas, dos pobres e dos patriotas em geral. Prosseguindo, o movimento concretista foi ridicularizado pelos supostos danos do pensamento humano. No caso do presidente Bolsonaro ele foi vitimado pela grande mídia tendenciosa que dita modismos, pelo empresariado brasileiro viciado em compadrescos empréstimos concedidos pelo BNDES. Os concretistas foram acusados de subversivos literários; sobre Bolsonaro tentaram a lançar a pecha de antidemocrático, fascista, nazista, etc. O movimento concretista permaneceu inabalado ante os ataques dos conservadores, sendo que ocorreu o mesmo com o presidente Bolsonaro mediante as críticas “desconstrutivas” de valores e golpes baixos dos coronéis, caciques e velhas raposas da política.
O movimento concretista resistiu; reinventou-se, haja vista que passou a coexistir com a vertente neoconcretista. Da mesma forma, Bolsonaro cedeu estrategicamente ao assédio do centrão político.

Dado o contexto político atual, tranquilamente podemos afirmar de modo seguro que, à semelhança do concretismo literário, o presidente Bolsonaro continua em alta junto à sociedade brasileira. Assim, o concretismo manifesta-se na política do nosso país, passando por uma dinâmica jamais presenciada, a ponto de evoluir rapidamente para uma posição vanguardista de valores. Logo, a partir de uma análise sensata, podemos classificá-la de política pós-neoconcretista (é neologismo, mesmo).

Seneval Viana da Cunha

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